Subiu as escadas em silêncio e com cuidado. Todo o tipo de coisas passavam pela cabeça da ingénua criança. Monstros, ladrões, extraterrestres… Pôs a mão na maçaneta e rodou-a, lentamente.
Quando abriu a porta, viu à sua frente uma janela partida e um saco de plástico contorcer-se. Um pombo encontrava-se preso lá dentro. O pobre animal tinha ficado preso num saco de plástico e chocado contra a janela. Alexandre apressou-se em tirá-lo de lá, pegando nele como se de um tesouro se tratasse. Dirigiu-se à janela quebrada e largou o pombo, vendo-o voar céu fora.
De repente, apercebeu-se do que tinha feito. Tinha quebrado uma das regras da sua mãe: não ir ao sótão. A curiosidade encheu o peito de Alexandre e este virou-se para ver o que havia naquele misterioso lugar. Na expectativa de encontrar algo chocante e perturbador, apenas encontrou lenços brancos. Estes lençóis, que predominavam em todo o sótão, tapavam objectos de todas as formas, mas todos eles muito planos. Com receio, Alexandre destapou o mais próximo. Tirou a superfície branca rapidamente, de modo a que, se houvesse algo que o atacasse debaixo dele, tivesse tempo de se esquivar. No entanto, apenas um espelho de rebordo vanguardista se apresentava lá. O rebordo era divinal, sublime. Com curvas puras e finas, todo o espelho era rodeado de uma «armadura» dourada. Cada pormenor era de uma grandiosidade enorme, deixando Alexandre estupefacto.
Por que raio quereria a mãe esconder isto cá em cima?!
Alexandre focou-se agora no espelho em si, abrindo os olhos com um ar de assombro. A confusão e o pânico deixaram-no paralisado por momentos. Quando conseguiu reagir, destapou todos os outros esbeltos espelhos, ficando com um ar ainda mais medonho a cada espelho que olhava. Algo de errado se passava ali, e Alexandre sabia-o. Em horror e frustração, Alexandre lançou o punho frágil ao espelho, quebrando-o em pedaços.
Momentos mais tarde, a mãe chegara a casa, dando pela falta do filho. Gritava o seu nome a cada cinco segundos. Vendo que o filho não respondia, começou a ficar desesperada. De repente, olhou para o cimo das escadas e viu a porta do sótão aberta. Um medo terrível trespassou-lhe a alma, fazendo-a correr em direcção à porta semi-aberta e o pavor tomava conta do peito da pobre mulher.
Quando chegou ao andar de cima, viu o seu filho mais novo, com um olhar louco, agachado a um canto. O olhar desviou-se por segundos para todos os espelhos da pequena sala, fixando-se num partido e com manchas de sangue.
O menino olhou para a mãe, com um olhar diferente. Os seus olhos, doces e cinzentos, estavam agora medonhos e vermelhos. O menino tinha a mão na boca, chupando cada gota de sangue que saía da ferida, com um prazer enorme, como quem bebe água após atravessar um deserto.
A mãe ficou ali, paralisada e apavorada, sem fazer nada, vendo o seu sétimo filho, qual vampiro desconhecido, beber o seu próprio sangue, até ficar sem nenhum, caindo, inerte e pálido, no soalho de madeira ensanguentado. A morte era visível nos olhos vermelhos do pobre e inocente monstro.
(Fim)
Leonardo Silva
gosto tanto :DD de TODOS os textos 8))
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